Entrevista com o IPÊ: a importância de projetos de reflorestamento no Brasil

O Brasil é um dos países com maior diversidade de flora e fauna do planeta, mas também está entre os que mais desmatam. Sendo assim, é de extrema importância que existam organizações que realizem projetos de reflorestamento, tal qual o caso do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, que há 27 anos trabalha para resolver este problema e conscientizar as pessoas sobre a importância disso. O Pense Verde conversou exclusivamente com Alexandre Uezu, coordenador do Projeto Semeando Água, de responsabilidade do IPÊ com patrocínio da Petrobrás, que visa reverter a perda de serviços ecossistêmicos, como a provisão da água, causada pelo desmatamento.

Pense Verde: “Qual a importância de uma equipe especializada pra realizar o plantio?”

Alexandre: “A importância de uma equipe que conte com a coordenação de um especialista em restauração florestal é primordial. Plantar é um ato que vai muito além de abrir um berço, posicionar a muda e cobrir com terra até o nível do torrão. O preparo do plantio começa muito antes e envolve conhecer as características de cada estação na região, o volume de chuva, o solo, as mudas mais indicadas para determinado local, a diversidade necessária de acordo com a realidade do entorno do local do plantio. No momento do plantio, a equipe com experiência sabe exatamente como plantar cada muda, os cuidados necessários na véspera, durante e o acompanhamento, com o monitoramento e manutenção, que em média dura dois anos.”

Pense Verde: “E quais os tipos de profissionais envolvidos?”

Alexandre: “O plantio dentro do Projeto Semeando Água é feito sob a coordenação do engenheiro florestal Tiago Pavan Beltrame, com orientação do Mauro Rufato, também engenheiro florestal e participação de dois técnicos de campo que seguem as orientações e acompanham o desenvolvimento das mudas. Tiago tem mestrado em Agronomia e doutorado em Ecologia Aplicada e experiência na área de Recursos Florestais e Engenharia Florestal, com ênfase em Recuperação de Áreas Degradadas e Silvicultura, atuando principalmente nos seguintes temas: Ecologia da restauração, silvicultura de nativas e exóticas, sistemas agroflorestais, manejo de microbacias hidrográficas, além de participação comunitária e agricultura familiar.”

Pense Verde: “O IPÊ realiza um estudo de solo antes de realizar o plantio. Pode nos falar um pouco sobre?”

Alexandre: “O ideal antes de começar um plantio é realizar a análise química do solo. A variável mais importante de ser observada é a acidez (pH). Na maioria dos casos, o solo é muito ácido. Nesses casos, recomenda-se a calagem, ou seja, aplicar calcário sobre o solo, para reduzir a acidez e aumentar a disponibilidade de nutrientes para as mudas. Uma alternativa interessante é o uso de plantas leguminosas, como feijão-guandu (Cajanus cajan), feijão-de-porco (Canavalia ensiformis), lab-lab (Lablab purpureus) e crotalária (Crotalaria sp), que auxiliam na incorporação de nitrogênio atmosférico no solo, além de aumentar os teores de Matéria Orgânica no solo. Onde o terreno não é muito íngreme, o solo também é preparado usando um subsolador. Em geral os solos da região apresentam-se bastante compactados devido ao uso degradante de anos com pastagens mal manejadas. O subsolador cria um sulco no solo de cerca de 1 m de profundidade, isso faz com que as mudas se desenvolvam melhor já que as raízes conseguem se fixar e penetrar no solo mais facilmente.”

Pense Verde: “Diferentes árvores têm diferentes papeis em determinado bioma. Quais são eles?”

Alexandre: “As árvores estão divididas em dois grupos: recobrimento e diversidade, de acordo com as características e funções e tem como objetivo facilitar a restauração ecológica. O grupo de recobrimento é constituído por espécies arbustivas e arbóreas com bom crescimento em altura e copa ampla, proporcionando um rápido sombreamento da restauração. A função desse grupo é criar rapidamente uma cobertura vegetal na área em restauração, para que esta cobertura proporcione condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento das espécies do grupo de diversidade. Já o da diversidade é constituído por espécies arbustivas e arbóreas, que não se enquadram nas características das espécies do grupo de recobrimento, e pelas espécies herbáceas do interior de florestas (samambaias, gramíneas, etc), lianas (cipós) e epífitas (orquídeas, bromélias, etc). A função desse grupo é garantir a perpetuação da restauração ecológica, substituindo as espécies de recobrimento, pois normalmente tem ciclo de vida maior e proporciona as interações ecológicas necessárias para a manutenção da floresta. No processo de formação da floresta e quando ela já estiver bem formada, ela produzirá diversos ser serviços ecossistêmicos. Um serviço primordial para a região é a conservação da água. As florestas auxiliam no ciclo hidrológico, aumentando a infiltração de água de chuva e reduzindo o aporte de sedimentos dentro de rios, nascentes e represas. A floresta também será um repositório de carbono, diminuindo a quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera contribuindo para a regulação climática. A floresta também será abrigo para muitas espécies da fauna e flora, diminuindo os impactos negativos sobre a biodiversidade.”

Pense Verde: “Os maiores esforços do IPÊ estão concentrados na região do Sistema da Cantareira. Porque escolheram esta região em específico? “

Alexandre: “No Sistema Cantareira, cerca de 60% das Áreas de Preservação Permanente (APPs) têm outros usos que não o florestal – em geral pastagens degradadas. Esse cenário indica que é preciso restaurar 21 mil hectares das APPs (21 mil campos de futebol), o que significa plantar 35 milhões de árvores. A recuperação dessas áreas contribui para o aumento da segurança hídrica do Sistema Cantareira responsável pelo abastecimento de água de 7,6 milhões de pessoas na região metropolitana de São Paulo.  A água do Sistema Cantareira também é importante para as regiões de Piracicaba e Campinas. A restauração evita o assoreamento de rios e açudes, aumenta a proteção dos mananciais e a biodiversidade na região, contribuindo assim com a segurança hídrica. Devem ser prioridades: recuperar a vegetação nativa nas áreas de mananciais hídricos (nascentes, rios, represas), as áreas com grande declividade, onde as atividades produtivas normalmente são restritas, além dos pontos com processos de erosão. Nesse caso, é preciso levar em consideração que além das atividades na área em erosão, a área do entorno também deve receber intervenções para que assim cessem os fatores que estão levando à situação.”

Pense Verde: “Quais as espécies são plantadas na região?”

Alexandre: “Entre as espécies plantadas nós temos angico araçá-amarelo, araucária, aroeira-pimenteira, cabeludinha, canafistula, cereja-rio-grande, dedaleiro, ingá-mirim, ipê-amarelo, ipê-branco, ipê-rosa, ipê-roxo, jacarandá-minoso, jatobá, jenipapo, paineira-rosa, palmito-juçara, pitanga, quaresmeira, sangra d’água, sibipuruna e uvaia.”

Pense Verde: “Não é segredo que a Mata Atlântica, bioma ao qual a região do Sistema da Cantareira pertence, possui uma das maiores diversidades tanto em fauna quanto em flora do planeta. Nos fale um pouco sobre as espécies que se beneficiam do projeto.”

Alexandre: “Todas as espécies nativas que vivem na região ou na proximidade se beneficiam a curto ou longo prazo da restauração florestal. Em paisagens já bastante modificadas, com menos de 50% de áreas naturais, o habitat se torna segmentado (fragmentado) e o tamanho e o grau de isolamento dos fragmentos remanescentes influenciam diretamente na ocorrência das espécies animais e de plantas que sobrevivem na região. Fragmentos pequenos apresentam menos recursos (por exemplo, alimentos e abrigo) e, por isso, conseguem manter apenas populações pequenas das espécies. Devido a esse baixo número de indivíduos, essas populações apresentam maiores chances de desaparecerem localmente. Essas chances são ainda maiores quando esses fragmentos estão muito isolados, ou seja, muito distantes de outros fragmentos de habitats naturais, visto que a probabilidade de receber migrantes é reduzida nesses casos. No Sistema Cantareira é possível perceber que o aumento de conectividade no eixo norte-sul é mais importante do que em outras direções, uma vez que o restabelecimento dessa ligação unirá grandes maciços florestais. A restauração para o aumento da conectividade é importante sobretudo nas áreas de contribuição da represa do Atibainha e do Cachoeira. Em geral, o aparecimento dos animais se inicia com as espécies mais generalistas e que tem grande capacidade de dispersão. Por exemplo, em áreas de pastos abertos muitas espécies de aves não conseguem pousar porque não há poleiros para elas pararem, embora elas tenham capacidade de chegar a essas áreas. No entanto, a partir do momento que o processo de restauração se inicia e as árvores começam a criar condições essas espécies passam a buscar abrigos e alimentos nessas áreas. Muitas espécies plantadas produzem flores e frutos que são recursos importantes para muitos animais, como os polinizadores, como os beija-flores, as abelhas, morcegos e borboletas, que ainda no primeiro ano de plantio já começam a chegar na área de restauração. Outras aves chegam logo interessados em alimento, como sementes, frutas e insetos e como dispersores de sementes também contribuem com o aumento da diversidade na região. O tucano-de-bico-verde, o tucanuçu e o jacu são vistos com certa facilidade na região. Do reino vegetal, no acompanhamento das mudas é comum encontrarmos exemplares que não foram plantados pelos técnicos, mas sim pelos pássaros. Fazem parte da fauna de Nazaré Paulista, nas proximidades da Atibainha – uma das cinco represas que formam o Sistema Cantareira: o serelepe (Sciurus aestuans), pequenos primatas, como sauá  (Callicebus nigrifrons) e o sagui (Callithrix sp) que encontram segurança nos fragmentos florestais, já que no chão são presas fáceis de felinos, como a jaguatirica (Leopardus pardalis), o gato-maracajá (Leopardus wiedii) e o gato-mourisco (Puma yagouaroundi). Sobre o tempo necessário para que as espécies acima identifiquem a área restaurada como interessante para alimento e abrigo, depende da evolução das mudas e do uso ao redor. Se nas proximidades da área plantada tiver outras áreas de mata, a chance dessa nova área ser incorporada como parte do habitat das espécies aumenta. Considerando que em dois anos a floresta tenha condições de seguir sozinha e não precise mais do acompanhamento dos técnicos, em média, esse seria o tempo para começarmos a observar esses animais de pequeno e médio porte.”

Conheça mais sobre o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas acessando www.ipe.org.br e http://semeandoagua.ipe.org.br.


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1 comentário Adicione o seu

  1. Post interessante e entrevista esclarecedora. Muito bom!

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